Há quatro décadas, a esquerda brasileira gira em torno de um único personagem: Luiz Inácio Lula da Silva. E talvez essa dependência tenha se transformado em um dos maiores obstáculos à renovação desse campo político.
Lula se tornou deputado federal em 1986 e disputou a Presidência pela primeira vez em 1989. Perdeu três eleições consecutivas, em 1989, 1994 e 1998, até vencer em 2002 e conquistar a reeleição em 2006.
Em 2010 e 2014, foi o principal fiador das vitórias de Dilma Rousseff. Em 2018, mesmo fora da disputa, continuou sendo a principal referência eleitoral do PT, que acabou derrotado com Fernando Haddad. Voltou ao poder em 2022 e, em 2026, busca mais uma vitória.
São sete disputas presidenciais diretamente protagonizadas por Lula antes de 2026. Uma trajetória extraordinária, mas que também revela um problema: a esquerda brasileira envelheceu à sombra de seu maior líder.
Para se ter uma ideia, Lindbergh Farias, que no início dos anos 1990 representava uma espécie de Nikolas Ferreira da esquerda, símbolo de juventude, mobilização e renovação política, já chegou aos 57 anos em 2026. Na próxima eleição presidencial, em 2030, terá 61.
Enquanto a direita passou por transformações, revelou novas lideranças e reorganizou seu discurso, a esquerda permaneceu excessivamente dependente de Lula.
É evidente que uma derrota eleitoral não produz renovação automaticamente. Mas pode provocar algo que sucessivas vitórias ajudaram a adiar: a necessidade de construir novas lideranças, atualizar o discurso e encontrar caminhos para além do lulismo.
O paradoxo é que Lula, responsável pelas maiores vitórias eleitorais da esquerda brasileira, também pode ter se tornado seu maior obstáculo geracional.
Talvez a esquerda precise perder com Lula para aprender a existir sem ele.